“agora sofre”

Ouvindo Jards Macalé desde ontem. “Um álbum de fotografia para depois queimar” – é ao que se resume o amor. O som em surdina dos metais ficou centrifugando em minha mente junto com a ressaca. Me lembrou Taxi Driver. Rodando pelas ruas de Brasília, alto do álcool, errando as quadras da W3 Sul. Lerdo do sono, apreensivo quanto à polícia, pensando na vida, furando os sinais fechados, filosofando quanto ao amor; imaginando roteiros, construindo estórias; de certo modo, é tudo o que sobra depois de mais uma noite por aí. Gosto da noite, do cheiro da noite, do som de sax, esparso, viajando pela escuridão, arrastando papéis no vento. As lojas fechadas borrando o soslaio da retina. Tudo passa. Cena de cinema. Gosto de olhar dentro da noite, o rosto das pessoas, as possíveis histórias por trás dos olhares, por vezes, tontos. Gosto de olhar as garotas a se sacudirem ao som espacial pós-contemporâneo. Jackson estremece a noite, provoca frisson. É meio recorrente, mas me sinto cada vez mais velho, mais lento, mais reticente, mais cauteloso quanto ao novo. Há um erro terrível ao se estar rodeado de belas garotas: nunca sei por onde começar. Vontade de tá longe; enroscando entre as pernas macias da mulé cheirosa, tentando me equilibrar no vão da boca, saliva. Ela escreve no e-mail, quase chorando, que talvez esteja arrependida. Lá se foram quase dois anos desde a porta encerrada, com força, atrás de si, sem olhar pra trás. Talvez ele já nem goste mais de garotas, mas mesmo assim, ela ainda não sabe o quer da vida. Mas esta não é a minha estória. A minha é aquela outra. A do cara que foi embora, que saiu para comprar um maço de cigarros e foi visto no Japão. Gosto dos olhos e do jeito com que ela faz com a boca na hora de dançar. Vagueio em prosa, pra destilar versos em seu vestido. A poesia é só um jeito de impressionar as garotas, sempre foi. Eles acreditam que Deus estava ocupado com a criação de algum outro universo, gastando horas em frente o ábaco. Hoje vi teu nome na televisão. Tudo estava frio como um fade out de algum filme de Sofia. O disco chegou ao fim. Hora de ir pra casa. O celular calado do Beatles. Você me faria um bem danado, se acaso, me telefonasse agora. Tim Maia… “agora sofre”

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Uma resposta para ““agora sofre”

  1. Gostei daqui…

    você escreve muito bem.

    🙂

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