Das coisas que chegam ao fim

o céu ainda estava lá
fosse julho, quem sabe
desamarrotou o terno antigo
limpou os sapatos gastos
se pôs pela rua:
jornais debaixo do braço,
broche na lapela,
o mesmo rosto nos reflexos,
nos vidros dos edifícios espelhados.
talvez fosse para um samba,
a gafieira do cafetina café.
ainda era cedo,
cedo do dia, talvez não da vida,
ao menos era o que achava.
“o amor é um desperdício,
uma faísca”
era em tudo o que conseguia pensar
quando a pólvora quente
saiu zunindo pelo vão da tarde.

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“agora sofre”

Ouvindo Jards Macalé desde ontem. “Um álbum de fotografia para depois queimar” – é ao que se resume o amor. O som em surdina dos metais ficou centrifugando em minha mente junto com a ressaca. Me lembrou Taxi Driver. Rodando pelas ruas de Brasília, alto do álcool, errando as quadras da W3 Sul. Lerdo do sono, apreensivo quanto à polícia, pensando na vida, furando os sinais fechados, filosofando quanto ao amor; imaginando roteiros, construindo estórias; de certo modo, é tudo o que sobra depois de mais uma noite por aí. Gosto da noite, do cheiro da noite, do som de sax, esparso, viajando pela escuridão, arrastando papéis no vento. As lojas fechadas borrando o soslaio da retina. Tudo passa. Cena de cinema. Gosto de olhar dentro da noite, o rosto das pessoas, as possíveis histórias por trás dos olhares, por vezes, tontos. Gosto de olhar as garotas a se sacudirem ao som espacial pós-contemporâneo. Jackson estremece a noite, provoca frisson. É meio recorrente, mas me sinto cada vez mais velho, mais lento, mais reticente, mais cauteloso quanto ao novo. Há um erro terrível ao se estar rodeado de belas garotas: nunca sei por onde começar. Vontade de tá longe; enroscando entre as pernas macias da mulé cheirosa, tentando me equilibrar no vão da boca, saliva. Ela escreve no e-mail, quase chorando, que talvez esteja arrependida. Lá se foram quase dois anos desde a porta encerrada, com força, atrás de si, sem olhar pra trás. Talvez ele já nem goste mais de garotas, mas mesmo assim, ela ainda não sabe o quer da vida. Mas esta não é a minha estória. A minha é aquela outra. A do cara que foi embora, que saiu para comprar um maço de cigarros e foi visto no Japão. Gosto dos olhos e do jeito com que ela faz com a boca na hora de dançar. Vagueio em prosa, pra destilar versos em seu vestido. A poesia é só um jeito de impressionar as garotas, sempre foi. Eles acreditam que Deus estava ocupado com a criação de algum outro universo, gastando horas em frente o ábaco. Hoje vi teu nome na televisão. Tudo estava frio como um fade out de algum filme de Sofia. O disco chegou ao fim. Hora de ir pra casa. O celular calado do Beatles. Você me faria um bem danado, se acaso, me telefonasse agora. Tim Maia… “agora sofre”

Transa

Desencaixotei os vinis. Estava com vontade de ouvir London, London, deitado no sofá da sala com um vinho barato. Ainda lembro das tuas curvas do teu corpo. Jóia ainda tem o teu hálito que você derramava sobre mim, ofegante, impávida, enquanto transávamos no sofá da casa dos teus pais. Cigarros, vinhos e Caetano, depois a correria pra limpar a bagunça toda, antes que seu pai entrasse pela porta. Daí vinha o Transa, enquanto você contava tuas piadas sem sentido. You Don’t Know Me. Eu conhecia o teu corpo, ah como eu conhecia aquela tua pele branca cor de leite, borrada de sardas, conhecia os teus dedos que você passeava ávida por mim. Nunca me sentia só. O seu ar revolucionário provocando minhas fantasias, os seus clichês, incenso perfumando a casa, a saia hippie. Eu gostava daquele grande clichê que você era. Godard, Bertold Brecht, Chico, que você não trocava por ninguém, com quem devia ter os teus pequenos/grandes silenciosos, trancada em teu quarto. Chico nunca mais foi o mesmo pra mim… Eu quis assassiná-lo. Juro que quis. Não me pergunto por onde você andará, o que me interessava ficou lá atrás, naquelas tardes.

*um texto avulso, em prosa, como há muito eu não fazia, desde da época do gamella, acho. Acho, também, que perdi a mão… rs

end’s tarantino

E se o mundo for mesmo acabar? O que você gostaria de ouvir?

Talvez Sinatra.

Something?

Não, acho que não. Talvez under my skin…

“Don’t you know little fool?”

É bem provável.

Meio Tarantino este teu Juízo Final.

trilogia das cores

o tempo que levou
na outorga do que ficou
o resto de tudo em tudo
você passeava descalça pelo teto
rolava pelas paredes quase brancas
pintando de azul tudo em mim
tudo em nós era vermelho
vermelho suor, quente, que escorre
que ferve, fervilha, leva, tira
você tinha uns olhos imensos, péssimos
por vezes distantes
em suspiros dizia baixinho
talvez alguém note tua tristeza
antes que tudo termine
bem tarde, perto do sol
quando já for verão
entre tuas pernas quentes
e era sempre verão,
sempre que você se aproximava
sempre que me olhava
com esse teu olhar cinza de vontade
sempre que você pedia…

hotel solidão

o que é simples nem sempre serviu de cimento,
de cola pra os amantes…
cola tua pele na minha, ajoelha, implora
diz ao que veio
talvez eu lhe conte algum segredo
talvez eu lhe mostre algum sonho bom
sonho pele, sonho pêlos, você e você,
vontadade de me enfiar aí no meio,
gritar teu nome baixinho,
dizer coisas no teu ouvido
talvez com algum respeito
esta não é hora de juras de amor eterno
é hora do sabor, do instante, da ebulição…
do gosto na boca, da boca no gosto com gosto
deixa vir nos gritos, nos gemidos
deixa que você escorra,
que fuja por debaixo da coberta, da porta
te apanho inteira… amanhã só arranhões
tudo não passou de um rasgo
um rasgo besta! Mais uma vez.

tropeço

não sobra tempo, respondeu com uns olhos rasos de lágrimas, lembrando daqueles outros tempos, quando era possível senti-lo entre as pernas.